Whisky do esquecimento

– Minha filha, sirva-me um desse. Puro!

Você é nova aqui, não é? Nunca vi essa sua cara por aqui antes…

Pois, é claro!

Vivem mudando de mocinhas esse lugar. É cada história que ouço! Uma, que não se adaptou ao ambiente. A outra, que se casou com o gerente e ele lhe deu a oportunidade de não precisar mais trabalhar. Outras, sem paciência nenhuma para ouvir estórias.

Mas você é moça nova! Deveria estar trabalhando em outro lugar, desses que tem computador e se trabalha com expediente diurno e horário de almoço, e não servindo bebidas atrás de um balcão.

Tenho uma neta da sua idade… Ou será tataraneta? Não sei ao certo e agora me fugiu. Tudo que é novo vem assim meio confuso em minha memória… Mas do passado eu me lembro bem. Me lembro de Laurinha, minha falecida esposa.

Que linda era Laurinha. Tinha os cabelos dourados quando nos conhecemos lá em Botafogo. Era moça fina! Tinha 16 anos e um olhar que não consigo esquecer.                                  Você está ocupada? Porque, veja só, agora enquanto  estou lhe contando essas coisas, consegui me lembrar de outras que há tempo não se passavam pela minha memória. A memória é deveras uma caixinha de surpresas, minha filha.

Quero lhe contar mais de Laurinha e do nosso tempo lá em Botafogo, mas antes, dê-me mais um desse e dessa vez você pode colocar gelo.

Verão de 1957. Conheci Laurinha que era filha de um Barão de Café, lá em Botafogo. Estava com um vestido verde! Ou era amarelo? (suspira) Era um lindo vestido e foi amor a primeira vista.

Laurinha estava prestes a entrar para a Igreja Imaculada Conceição do Sagrado Coração de Jesus. Estava acompanhada de sua mãe que não lhe dava folga de olhar para o lado. Mas Laurinha olhou e me avistou, logo atrás dela, na porta da igreja, de calça curta e de coração aberto. Naquele momento estava pronto para desafiar o temido Barão e pedir a mão de Laurinha!

Já imaginei que seria tarefa difícil, porque Laurinha era moça estudada e recém chegada no Rio de Janeiro. Havia passado parte de sua infância estudando na Europa e o Barão já tinha outros planos para ela, mas consegui convencer quando mencionei com ares de fidalgo que era da família Assumpção e poderia provar que meu tataravô havia sido comensal na casa de Dom Pedro II e também chegou a trocar algumas correspondências com a Rainha… Ou era Marquesa? Não. Era Rainha! Era o que vovô e papai diziam.  Meu bisavô era amigo de Galeão Botafogo. Mas além de mostrar à ele sobre os meus antepassados, eu precisava provar meu amor por Laurinha, e isso, certamente, ele não poderia duvidar.

Naquela noite encomendei flores e fui dissimulado ao ponto de preparar uma serenata de frente a casa do Barão e a janela de Laurinha, cantarolando Carlos Gardel, que naquela altura já sabia que soaria elegante aos ouvidos do Barão. Ele abriu a janela de sua casa, que ficava localizada à Rua São Clemente… Ou era na Dona Mariana? Bom, isso não importa! Ele me pediu por favor para parar, pois a vizinhança já estava atônita e mais um pouco Laurinha ficaria falada. Não foi tão difícil convencer o Barão. Embora não lembrasse meu nome, havia feito uma pesquisa sobre minha família e pôde constatar a história dos Assumpção que eu lhe contara recentemente. Finalmente consegui as mãos de Laurinha e pouco tempo depois nos casamos naquela mesma capela.

Qual é o seu nome, minha filha?

Michele, você já ouviu falar nos Assumpção? Você pode pesquisar, já que hoje está tudo modernizado! Vai ser fácil saber sobre a mesma história que convenceu o Barão de Jacarandá, naquele Verão de 1947.

Você é atenciosa! A outra moça que estava aqui antes de você nunca me dava ouvidos.

Veja aquele casal alí na mesa ao lado. Que pouca vergonha, Gisele! Onde já se viu tanta agarração em público?! Me dê mais um. Encha o copo, pois estou inconformado com essa modernidade escandalosa. Se Laurinha estivesse aqui e visse isso sairíamos apressados daqui. Mas Laurinha não está, então vou ficar mais um pouco fazendo companhia para você.

Me lembrei a cor do vestido! Era cor-de-rosa, minha filha! Como eu pude esquecer?

Tenho um retrato à óleo aqui em minha carteira de um Janeiro de 1949. Olhe!

Esse à esquerda sentado é vovô. Essa ao lado dele é mamãe e este senhor elegante é papai. Este de chapéu sou eu! O único que está olhando para a câmera. Ao meu lado é Geraldo, meu amigo de infância que gostava de aparecer nas fotos de família.

Estou há algum tempo por aqui, não é? Que horas são? Preciso ir embora, pois Laurinha já deve estar preocupada comigo. Nunca fico fora de casa durante tanto tempo. Acho melhor me apressar.

Viu, Mirele, você gosta de Carlos Manuel? Conhece aquela canção… Como é mesmo o nome da canção da serenata que fiz as pressas à janela de Laurinha? Você não prestou atenção quando eu contei, não é?! Mas, tudo bem. Agora preciso que me sirva mais um!

Eu não deveria lhe contar tanto de minha Laurinha, mas confio em você. Não me imagino sem ela, sabe?!

Por obséquio, você já teve a impressão de já ter estado em um lugar onde se está pela primeira vez? É assim que me sinto aqui, minha filha!

Nunca havia passado por essas calçadas e hoje resolvi parar aqui para beber alguma coisa. Mas esse lugar não me é estranho!

Onde fica o banheiro dessa jossa? Peça para algum segurança me acompanhar até lá, porque já não me aguento de pé!

E antes que eu me vá, Marcele, pretendo pedir sua mão em casamento. Fique aí onde está, que já volto para fazer o pedido formal! Providencie também um analgésico, pois minha cabeça está prestes a explodir. Deve ser a memória que teimei em trazer de volta.

Devagar, meu filho, pois tenho uma fratura no colo do fêmur!

(…) Onde está a senhorita que estava aqui comigo antes de eu ter me retirado um momento para o banheiro? Íamos nos casar na capela de Jacarandá!

Já deve ter passado seu turno ou estava farta de me ouvir trocar seu nome…

A propósito, meu filho, você já ouviu falar nos Assumpção de Botafogo?

Mais um texto inspirado em Chico Buarque, sobre a maneira engraçada que ele expõe o esquecimento em Barra Funda e Leite Derramado.

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2 respostas em “Whisky do esquecimento

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