Sobre Natalie Cristine

Para ser grande, sê inteiro: Nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, Porque alta vive. (Fernando Pessoa.)

Un beau jour. Ou était-ce une nuit?

Uma belo dia, um homem decidido a refazer sua vida, caminha em direção ao banco de uma praça no Leblon. Disposto a retomar o curso de sua vida, ele senta-se sob o firmamento.  Sua mente, um verdadeiro rodamoinho de sensações, lhe remete à lembranças que ele tenta esquecer.  Em vão. Ele lamenta suas dores consigo mesmo e divaga sobre o por quê, quando e como, esta lhe fugiu o controle. Conclui que parte de sua vida, doada, precisa ser reestabelecida e, tomada de volta. Ali, do mesmo ponto em que parou.

Um homem, uma vida, uma ruptura, em um mar de sensações.

Uma bela noite, um homem de nome comum, disposto a refazer a sua vida, caminha em direção à uma praça no Leblon. Disposto a retomar o curso de sua vida, e a esquecer o paraíso mal construído, suas estórias mal escritas, em cadernos amarelados. Ele não lamenta.  Em sua mente uma nova esperança lhe permite redesenhar o futuro que sempre sonhou para si. Desta vez com mais sorrisos.

Um homem, uma pagina em branco, em um mar de sensações.

À distancia, eu ouço seu coração bater.

Sobre você num versinho

É que a tua voz, moça, é calma e me encanta e, é aí, exatamente no espaço entre uma palavra e outra que sai de você que eu me encontro. Aí, você sabe, eu não me seguro e seguro tento te mostrar que posso ser mais do que seu amigo.

Você diz que tem alergia da minha barba, então, te ligo de madrugada pra te falar que me barbeei por você.

Aí te envio uma foto, duas, três, pra você querer me ver. Mas você me escapa.

Você duvida de mim e diz que somos diferentes,

Mas ai, de repente, eu consulto teu signo e te provo que na astrologia meu signo combina com o seu. Você ri, faz que não entende e finge que não sente que meu coração é teu.

Deixo o elevador e vou de escada pra poder andar, assim, bem de pertinho e te arrancar um sorrisinho com alguma coisa engraçada que eu disser,

Faço um monte de graça de pirraça.

É que teu encanto, moça, faz de mim um menino,

e, então eu musico baixinho, alguma rima pra você…

Senta aqui, que hoje eu quero te falar

Não a recuse, rapaz!

Você sabe que tudo que ela faz, no fundo, é pensando em te agradar. É pensando que você a reconhecerá de alguma maneira por isso, pelo simples fato dela ter sido a  mulher de sua vida. Aquela, que mesmo com todos os defeitos, birras, urgências, ciúmes e encrencas, sempre esteve ao teu lado, cochichando baixinho em seu ouvido uma palavra de amor.

Espera que eu não terminei! Segure todas essas palavras quando pensar em jogar na cara dela que ela sempre te interrogou demais e, que sempre foi birrenta demais e que por essa razão você esta a deixando. Esqueça essa história. Você deveria saber que a maioria das mulheres gostam quando propomos segurança a elas. É disso que estou falando. De amor! Do mesmo amor que você nunca soube demonstrar.

Se você, hoje, escolher perde-la de vez, talvez descubra tarde demais que ela sempre foi uma grande parte de você.

Desfaça essas malas e volte para os braços dela, rapaz.

Whisky do esquecimento

– Minha filha, sirva-me um desse. Puro!

Você é nova aqui, não é? Nunca vi essa sua cara por aqui antes…

Pois, é claro!

Vivem mudando de mocinhas esse lugar. É cada história que ouço! Uma, que não se adaptou ao ambiente. A outra, que se casou com o gerente e ele lhe deu a oportunidade de não precisar mais trabalhar. Outras, sem paciência nenhuma para ouvir estórias.

Mas você é moça nova! Deveria estar trabalhando em outro lugar, desses que tem computador e se trabalha com expediente diurno e horário de almoço, e não servindo bebidas atrás de um balcão.

Tenho uma neta da sua idade… Ou será tataraneta? Não sei ao certo e agora me fugiu. Tudo que é novo vem assim meio confuso em minha memória… Mas do passado eu me lembro bem. Me lembro de Laurinha, minha falecida esposa.

Que linda era Laurinha. Tinha os cabelos dourados quando nos conhecemos lá em Botafogo. Era moça fina! Tinha 16 anos e um olhar que não consigo esquecer.                                  Você está ocupada? Porque, veja só, agora enquanto  estou lhe contando essas coisas, consegui me lembrar de outras que há tempo não se passavam pela minha memória. A memória é deveras uma caixinha de surpresas, minha filha.

Quero lhe contar mais de Laurinha e do nosso tempo lá em Botafogo, mas antes, dê-me mais um desse e dessa vez você pode colocar gelo.

Verão de 1957. Conheci Laurinha que era filha de um Barão de Café, lá em Botafogo. Estava com um vestido verde! Ou era amarelo? (suspira) Era um lindo vestido e foi amor a primeira vista.

Laurinha estava prestes a entrar para a Igreja Imaculada Conceição do Sagrado Coração de Jesus. Estava acompanhada de sua mãe que não lhe dava folga de olhar para o lado. Mas Laurinha olhou e me avistou, logo atrás dela, na porta da igreja, de calça curta e de coração aberto. Naquele momento estava pronto para desafiar o temido Barão e pedir a mão de Laurinha!

Já imaginei que seria tarefa difícil, porque Laurinha era moça estudada e recém chegada no Rio de Janeiro. Havia passado parte de sua infância estudando na Europa e o Barão já tinha outros planos para ela, mas consegui convencer quando mencionei com ares de fidalgo que era da família Assumpção e poderia provar que meu tataravô havia sido comensal na casa de Dom Pedro II e também chegou a trocar algumas correspondências com a Rainha… Ou era Marquesa? Não. Era Rainha! Era o que vovô e papai diziam.  Meu bisavô era amigo de Galeão Botafogo. Mas além de mostrar à ele sobre os meus antepassados, eu precisava provar meu amor por Laurinha, e isso, certamente, ele não poderia duvidar.

Naquela noite encomendei flores e fui dissimulado ao ponto de preparar uma serenata de frente a casa do Barão e a janela de Laurinha, cantarolando Carlos Gardel, que naquela altura já sabia que soaria elegante aos ouvidos do Barão. Ele abriu a janela de sua casa, que ficava localizada à Rua São Clemente… Ou era na Dona Mariana? Bom, isso não importa! Ele me pediu por favor para parar, pois a vizinhança já estava atônita e mais um pouco Laurinha ficaria falada. Não foi tão difícil convencer o Barão. Embora não lembrasse meu nome, havia feito uma pesquisa sobre minha família e pôde constatar a história dos Assumpção que eu lhe contara recentemente. Finalmente consegui as mãos de Laurinha e pouco tempo depois nos casamos naquela mesma capela.

Qual é o seu nome, minha filha?

Michele, você já ouviu falar nos Assumpção? Você pode pesquisar, já que hoje está tudo modernizado! Vai ser fácil saber sobre a mesma história que convenceu o Barão de Jacarandá, naquele Verão de 1947.

Você é atenciosa! A outra moça que estava aqui antes de você nunca me dava ouvidos.

Veja aquele casal alí na mesa ao lado. Que pouca vergonha, Gisele! Onde já se viu tanta agarração em público?! Me dê mais um. Encha o copo, pois estou inconformado com essa modernidade escandalosa. Se Laurinha estivesse aqui e visse isso sairíamos apressados daqui. Mas Laurinha não está, então vou ficar mais um pouco fazendo companhia para você.

Me lembrei a cor do vestido! Era cor-de-rosa, minha filha! Como eu pude esquecer?

Tenho um retrato à óleo aqui em minha carteira de um Janeiro de 1949. Olhe!

Esse à esquerda sentado é vovô. Essa ao lado dele é mamãe e este senhor elegante é papai. Este de chapéu sou eu! O único que está olhando para a câmera. Ao meu lado é Geraldo, meu amigo de infância que gostava de aparecer nas fotos de família.

Estou há algum tempo por aqui, não é? Que horas são? Preciso ir embora, pois Laurinha já deve estar preocupada comigo. Nunca fico fora de casa durante tanto tempo. Acho melhor me apressar.

Viu, Mirele, você gosta de Carlos Manuel? Conhece aquela canção… Como é mesmo o nome da canção da serenata que fiz as pressas à janela de Laurinha? Você não prestou atenção quando eu contei, não é?! Mas, tudo bem. Agora preciso que me sirva mais um!

Eu não deveria lhe contar tanto de minha Laurinha, mas confio em você. Não me imagino sem ela, sabe?!

Por obséquio, você já teve a impressão de já ter estado em um lugar onde se está pela primeira vez? É assim que me sinto aqui, minha filha!

Nunca havia passado por essas calçadas e hoje resolvi parar aqui para beber alguma coisa. Mas esse lugar não me é estranho!

Onde fica o banheiro dessa jossa? Peça para algum segurança me acompanhar até lá, porque já não me aguento de pé!

E antes que eu me vá, Marcele, pretendo pedir sua mão em casamento. Fique aí onde está, que já volto para fazer o pedido formal! Providencie também um analgésico, pois minha cabeça está prestes a explodir. Deve ser a memória que teimei em trazer de volta.

Devagar, meu filho, pois tenho uma fratura no colo do fêmur!

(…) Onde está a senhorita que estava aqui comigo antes de eu ter me retirado um momento para o banheiro? Íamos nos casar na capela de Jacarandá!

Já deve ter passado seu turno ou estava farta de me ouvir trocar seu nome…

A propósito, meu filho, você já ouviu falar nos Assumpção de Botafogo?

Mais um texto inspirado em Chico Buarque, sobre a maneira engraçada que ele expõe o esquecimento em Barra Funda e Leite Derramado.

Dezembro

Já repararam que mês de Dezembro é diferente?

Tem cheiro o mês de Dezembro…

Dezembro tem cor, tem música, tem luzes por toda parte.

Em Dezembro há luzes dentro de mim… Dezembros me fazem lembrar de tudo que passei no ano. Em Dezembros passados. Em Dezembros que não se passaram, pois todos os Dezembros ficam. São mágicos, porque são capazes de permanecerem ao irem embora. São capazes de voltar do mesmo jeito que se foram, com o mesmo tom, as mesmas emoções e as mesmas luzes. Com as mesmas músicas e os mesmos sorrisos. Com a mesma ternura.

Dezembro é o meu mês! É o mês que comemoro a minha eterna saudade dele, deste mês que demora onze meses para nascer e vai embora depressa, levando o meu desejo de continuar nele por mais trinta dias, que seja… Não é possível que não possa ficar por mais um dia, por uma hora sequer.

Ele vai e leva consigo a sua urgência em partir…

Em sua racionalidade me deixa um novo ano todo cheio de serás e por quês. A única espera agora é que depois de mais algum tempo ele chegará de novo; encantado e encantando. Magico e colorido. Com aquela mesma alegria grudada no peito, sem forças para alcançar o destino. Com aquele mesmo vento que nasce do pulmão e ganha cor na altura da voz. Com aquele mesmo sol, naquele mesmo lugar de sempre. Com aquela mesma núvem ao entardecer. Naquele mesmo ritmo e naquela mesma vontade de ser pra sempre o grande mês da minha vida.

Dezembro, como gosto de você.

Diz que está “tipo” afim de se jogar em um romance assim, “tipo” pra vida inteira.

– Na boa, não sou mais uma das tais.

– Sei que não é, e é justamente essa diferença que me encanta em você.

– Você faz pelo desafio, então?

– Não. E nem só por mim, ou apenas por você. Faço por nós, porque acredito que podemos construir uma coisa legal juntos. Você deveria acreditar mais em mim e deixar de lado essa teimosia que te afasta de mim e da vida.

– Somos diferentes em muitos aspectos. Nem de longe isso daria certo. Além do que, você me passa um ar de inconstância, como se nada te prendesse às concepções de proteção e auto-preservação.

– Quantos constantes já não feriram você? Você está sendo preconceituosa e neste caso, a impotência é a pior coisa do mundo! Perder você sem poder te mostrar que pode estar completamente equivocada.

– Decidi não acreditar no romance e isso não deve ser culpa sua. Romance quando acaba te rende anos de terapia na frente do espelho, alguns livros que dizem que ensinam a como não errarmos da mesma maneira, nos faz perder a paz e sem ciência, também alguns anos de vida. Situações que nem nos passa pela cabeça ter que atravessar a nado, quando estamos de mãos dadas. Isso quando ele tem tudo para dar certo. Romance é ficção.

– Já passei da fase que você ainda teima que estou. Quem foram essas pessoas que te deixaram escapar e fizeram você ficar na defensiva? Você não pode deixar o que passou ser parâmetro para o seu futuro, pois dessa maneira você poderia estar se fechando para a melhor história do seu livro. É certo que não sei fazer música, mas eu me viro como posso… E, tá! Confesso também que eu não tenha tudo para dar certo com você, mas eu tenho uma coisa que me faz acreditar: Tenho muita vontade de te fazer feliz. Eu acredito no romance! Podemos crescer juntos! Se eu fizer algo que não seja no mínimo maravilhoso, voltamos a ser só amigos.

– Sem preconceitos, mas se eu te apresentasse ao meu pai, você teria que esconder as tatuagens, salvo ele não me deserdar a casa de campo.

– Poderia dizer que fui sedado e fizeram a força e, se ele não acreditasse eu diria a verdade e você perderia a casa de campo.

– Eu não fico.

– Eu sei. Tenho outra idéia! Me dá uma chance?

– Mas eu brinquei sobre a casa de campo.

– Tudo bem! Só preciso de você e do seu sorriso!

– Já disse que não sou fácil.

– Eu não quero o que é fácil.

– Por que insiste tanto?

– Porque eu gosto de você.

– Já é tarde, você viu? (…)

Ficção “tipo” assim, inspirarada na Canção de Chico Buarque – Tipo um Baião.

Na intenção de encontrar do lado esquerdo, um coração que faça par com o meu…

Foi quando perdi a literatura romancista, nebulosa, intitulada expectação, que compreendi que era momento de escrever. Por esses dias você me pediu algo que julguei justo, mas depois de juntar quebra-cabeças dentro de mim, me veio a hesitação combinada a dúvida: Para quê qualquer tipo de aproximação agora? E agi assim: egoísta, como você agiu, com a dissemelhança que lhe dei tempo de pensar no por quê da minha apatia. Mas este teatro de esconderijo, ainda que justo ou injusto não combina nem de longe comigo, por isso optei por me desarmar. Te digo, apenas, que cansei de desalinhar minha calma na intensão de entender o que você sobriamente intitula: “sua razão”. Quero apenas lhe impor um conselho, se me permite, querido: considere a arte de pensar antes de qualquer resolução. O contrário, poderá custar o tempo e um coração.

Naquele mesmo dia a minha compreensão: não importa o tamanho da poça d’água que eu encontre pela frente, é preciso antes calcular o tamanho do meu pulo.

Intermezzo – Das maneiras de sonhar

– Que horas são? (perguntou Luiza)

Tão somente para que pudesse registrar o tempo dos ponteiros à tênue perfeição que suavemente invadia cada espaço, naquele momento.

Do lado de fora não havia nada mais do que um mundo; pequeno.

Do outro lado: resquícios das luzes do sol,

o bramido do vento, agitando o branco das cortinas,

composição de belas canções,

olhos de sorrisos e, uma galeria de alentos.

Brahms – Intermezzo, Op. 118, No. 2 in A major

Quando eu quis falar…

Hoje, talvez não caiba à mim encontrar o paradeiro desse romance perdido. Sobretudo, ainda não consegui compreender a minha pueril desatenção quando por entre os dedos, como areia, não te vi escapar.

Palavras e pedidos que  me saltaram da língua, mas pararam entre os dentes. Ficaram presas por um pedido seu. Me lembro o quanto me afoguei com aquelas lágrimas que batizei com o seu nome… Era a dor e inquietação a cada soluço… Era a indignação por um sentimento que estava sendo forçada a reprimir. Era o fim dos planos que haviamos projetado para nós dois. Era eu sem você.

O fim de nós dois me consumiu noites em claro, notas ruins na faculdade… O fim de nós dois era inadmissível. Mas para mim restava apenas engolir as lágrimas e o soluço interminável em um dia-após-o-outro.

Te ver constantemente e ter que consentir com sua estranheza, com o distanciamento que você havia proposto, era para mim como um castigo. Eu tentava me refugiar em palavras de consolo e o que eu mais escutava era: “Passará.”

Inverdade. (eu achava)

Entretanto, as suas verdades me corroiam as entranhas. Eram os seus dias…Eram as verdades de sua vida atual que me perfuravam como uma estaca afiada.                       A constatação de suas verdades aconteceram numa velocidade, que à princípio desacreditei. Achei que fosse pirraça, uma maneira de querer chamar minha atenção… Mas não. Lá estava você no tempo infindável de meu luto, com sua intolerável verdade, que eu, ingenuamente neguei que pudesse acontecer…

Sua verdade dourada, brilhando em sua mão esquerda.

Eu estava só, ainda. Não permiti que ninguém se aproximasse… Não permiti à niguém beijar a boca que eu ainda considerava sua. Você, com certeza não sabia disso… Assim como não sabia da coleção de seus e-mails que eu ainda lia, dia-após-dia, como uma recordação dos nossos bons momentos. Era a doce e trágica fantasia que eu teimava em cultivar.

Justa. Respeitei e ainda o faço, sua nova posição… Naquela época procurei rabiscar sorrisos aparentes em minha cara, cada vez que te via…

Que cabimento tem esse texto, depois de ter tido essas feridas cicatrizadas, ao longo dos anos?  Nenhum.

Achei válido estampar, ainda que despretenciosamente, algo que me consumiu durante tantos anos, quando eu não conseguia falar:

“Seja feliz, querido.”

and so it is.

O antes e o depois

– O que há de errado com você?

– Não sei bem.
Andei pensando sobre nós dois…
Sabe, talvez eu não seja a melhor pessoa para você.
Você sonha com aquarelas que ainda não penso em pintar,
Você consegue ver através desse céu azul. Eu não vejo nada mais, além de um céu azul.

Você vê flores. Eu nem sei se quero estar aqui.

Não amo você.