Intermezzo – Das maneiras de sonhar

– Que horas são? (perguntou Luiza)

Tão somente para que pudesse registrar o tempo dos ponteiros à tênue perfeição que suavemente invadia cada espaço, naquele momento.

Do lado de fora não havia nada mais do que um mundo; pequeno.

Do outro lado: resquícios das luzes do sol,

o bramido do vento, agitando o branco das cortinas,

composição de belas canções,

olhos de sorrisos e, uma galeria de alentos.

Brahms – Intermezzo, Op. 118, No. 2 in A major

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Quando eu quis falar…

Hoje, talvez não caiba à mim encontrar o paradeiro desse romance perdido. Sobretudo, ainda não consegui compreender a minha pueril desatenção quando por entre os dedos, como areia, não te vi escapar.

Palavras e pedidos que  me saltaram da língua, mas pararam entre os dentes. Ficaram presas por um pedido seu. Me lembro o quanto me afoguei com aquelas lágrimas que batizei com o seu nome… Era a dor e inquietação a cada soluço… Era a indignação por um sentimento que estava sendo forçada a reprimir. Era o fim dos planos que haviamos projetado para nós dois. Era eu sem você.

O fim de nós dois me consumiu noites em claro, notas ruins na faculdade… O fim de nós dois era inadmissível. Mas para mim restava apenas engolir as lágrimas e o soluço interminável em um dia-após-o-outro.

Te ver constantemente e ter que consentir com sua estranheza, com o distanciamento que você havia proposto, era para mim como um castigo. Eu tentava me refugiar em palavras de consolo e o que eu mais escutava era: “Passará.”

Inverdade. (eu achava)

Entretanto, as suas verdades me corroiam as entranhas. Eram os seus dias…Eram as verdades de sua vida atual que me perfuravam como uma estaca afiada.                       A constatação de suas verdades aconteceram numa velocidade, que à princípio desacreditei. Achei que fosse pirraça, uma maneira de querer chamar minha atenção… Mas não. Lá estava você no tempo infindável de meu luto, com sua intolerável verdade, que eu, ingenuamente neguei que pudesse acontecer…

Sua verdade dourada, brilhando em sua mão esquerda.

Eu estava só, ainda. Não permiti que ninguém se aproximasse… Não permiti à niguém beijar a boca que eu ainda considerava sua. Você, com certeza não sabia disso… Assim como não sabia da coleção de seus e-mails que eu ainda lia, dia-após-dia, como uma recordação dos nossos bons momentos. Era a doce e trágica fantasia que eu teimava em cultivar.

Justa. Respeitei e ainda o faço, sua nova posição… Naquela época procurei rabiscar sorrisos aparentes em minha cara, cada vez que te via…

Que cabimento tem esse texto, depois de ter tido essas feridas cicatrizadas, ao longo dos anos?  Nenhum.

Achei válido estampar, ainda que despretenciosamente, algo que me consumiu durante tantos anos, quando eu não conseguia falar:

“Seja feliz, querido.”

and so it is.

O antes e o depois

– O que há de errado com você?

– Não sei bem.
Andei pensando sobre nós dois…
Sabe, talvez eu não seja a melhor pessoa para você.
Você sonha com aquarelas que ainda não penso em pintar,
Você consegue ver através desse céu azul. Eu não vejo nada mais, além de um céu azul.

Você vê flores. Eu nem sei se quero estar aqui.

Não amo você.

Eu, você…

Sonhos, são pequenos cenários de lugares onde desejamos, ou imaginamos estar.
Quando te dei meus sonhos, planejei e desejei estar com você nesse cenário, para viver parte desses sonhos e com você inventar o restante.
Inventar com as cores, sabores e os sons que só existem quando você está bem pertinho.
Hoje encontrei seu nome em um desses pequenos cenários.
Faltava a cor, o sabor e o som.

Me perguntei, por fim: Para onde será que levam os sonhos que não podemos mais sonhar?

Certas coisas…

Pede um café e procura sentar-se sempre no mesmo lugar.

Deve apreciar essa vista, esse cenário, essa avenida…

Fala-me de sua nova leitura, cita Goethe em nossas longas conversas…

Observo, minuciosamente e sem que você perceba o seu sorriso enquanto fala e gesticula…

Você, maduro, que sempre sabe o que dizer e como me dizer.

Você, que é invulgar. Sempre resoluto, sempre genuíno.

Onde esteve todos esses anos enquanto eu planejava ser feliz?

Telhados de Paris.

Aproximou-se do aparelho de som e gentilmente selecionou: Charles Aznavour- La Bohéme.

O relógio no canto da parede, apontava: quinze para as cinco da tarde. A chuva que caía lá fora enfeitava o céu e os vidros da janela, em um singular ballet.

Segurou-a pelos braços e lhe disse, olhando-a fixamente nos olhos: “Apaixonarme-ia por você nesse, ou em qualquer outro continente.” Pronunciava essas e outras doces palavras, enquanto à beijava, apaixonadamente.

Sobre a visita.

 
O vizinho, aturdido pela falta do barulho avassalador, procurou-me ainda por essa madrugada.
Reclamou.
Disse não gostar da ausência do tresvario, da música alta, dos poemas intermitentes, dos suspiros enlouquentes, da lua, da chuva, do vinho, de nós dois.
Perdeu a calma.
Eu lhe respondi que faltava  inspiração.
Mas prometi que não tardava chegar.
Ele, em sua avidez, prometeu esperar.

Passa.

Hoje não estou para ninguém. É melhor.
A sós com o silêncio, que não propõe solidão; um tênue vazio, camuflado por questões insólitas.
Ele fere, mas não mata. Ajuda a encontrar.

Rio de meu estado pueril, invento coisas para fazer, ocupo-me, torno-me sem tempo.
Mudo os móveis de lugar, guardo os porta-retratos, desligo o áudio daquela música preferida.
Encho-me de dúvidas hesitativas.
Anoto no papel alguns de seus vestígios, que nem sempre são aproveitados.
Sabendo de sua existência, bom mesmo é respeitar sua sofreguice.

Depois isso tudo vai, assim como veio.
A diferença é o que deixa.
Algumas músicas compostas, poemas repletos de palavras urgêntes, o óbvio, o ócio.
Já é hora de voltar os porta-retratos aos seus lugares, apartar-se das dúvidas, quebrar o silêncio, escutar aquela canção.

Olhos nos olhos.

O que pensarás, se de repente, entre as minhas canções preferidas, aquela letra que tanto lembra você, eu preferir não mais cantar?
O que pensarás, quando perceberes que aquela dor já não é mais dor…
E que, aquele sorriso que tanto admiravas quando te sorria, hoje busca outra razão pra sorrir?
O que será que vais pensar, quando descobrires que dos meus sonhos, aqueles sonhos, tu  já não faz parte?
O que pensarás, quando me veres?
Me encontrarás inteira.
O que pensarás, quando souberes que o meus olhos já não buscam uma razão para chorar; antes se apronta para um outro olhar?
O que pensarás, quando me pedindo para ficar, escutares: Aqui já não é o meu lugar?
O que pensarás, quando ao olhares para mim, perceberes que aquele peito, ora tão dilacerado, já busca um outro coração para amar?
O que pensarásr?
Inspirado na canção de Chico Buarque.

O que pensarás, se de repente, entre as minhas canções preferidas, aquela letra que tanto lembra você, eu preferir não mais cantar?

O que pensarás, quando perceberes que aquela dor já não é mais dor…

E que, aquele sorriso que tanto admiravas quando te sorria, hoje busca outra razão para sorrir?

O que pensarás, quando descobrires que dos meus sonhos, aqueles sonhos, tu  já nem sequer parte faz?

O que pensarás, quando me veres?

Me encontrarás inteira.

O que pensarás, quando souberes que os  meus olhos já não buscam uma razão para chorar; antes se apronta para um outro olhar?

O que pensarás, quando me pedindo para ficar, escutares: Aqui já não é o meu lugar?

O que pensarás, quando ao olhares para mim, perceberes que aquele peito, ora tão dilacerado, já busca um outro coração para amar?

O que pensarás?

Inspirado na canção de Chico Buarque – Olhos nos Olhos.